ESPELHO MEU e MINHA IMAGEM
Sandra Ravanini e José Carlos Lopes
Espelho meu,
perdoa essa face imune
e ressentida; de olhos apagados...
o sorriso açoitado que me pune
é o veneno do medo desgraçado.
Minha imagem à semelhança do aço
que destempera à ação feroz do lume,
estorva a nossa voz ao descaso
das brumas vertidas ao negrume.
Tanta derrota e violência eu te mostrei
nessa vida que agora, só, tu choras,
e o reflexo nega à sombra que ora olha
o que te falta, me falta... já nem sei!
E nada sei da mão que nos toca
nessa ilusão que, só, eu imaginei
suplantar o delírio que eu criei
erguendo-nos vagar e a desoras.
É tarde; não há luz ou porta aberta
e cá estamos, rascunhando a confissão
do opaco eu e eu, sigilo fosco que aperta
a garganta de quem provou a danação.
Tempo esquecido em vias desertas,
apenas nós, sem eira ou profissão,
imagem minha; vai agora e liberta
alguma palavra em nossa adoração.
Espelho meu, o tempo escoa e nos
condena
às vergonhas; portanto, rezar sem deus
encarando tu e eu, o nosso semblante ateu
devolvendo ao vidro feio o fim da cena.
Ou talvez poupar ainda um adeus,
imagem minha; desvanece e encena
a farsa e a apoteose da pena,
fazendo do desbrilho o nosso apogeu.
Campinas, 27/dezembro/2008
Londres, 28/dezembro/2008
Arte: Denise Moura


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