Decadência e Anuência
Sandra Ravanini e José Carlos Lopes
Vai morrendo a cor do céu em outro crepúsculo,
e descendo dos cântaros, poucas gostas num vazio
gotejando em mais um peito enegrecido e rústico,
ressequido pelos anseios de mais um dia que ruiu.
Desce áspera a saliva de um discurso que anuiu
no silêncio humilhado de mais um sorriso lúdico,
e mais essa agonia serpeando como um rio
enxurrando forças na atonicidade dos músculos.
Envelhece a noite no ritual sombrio da cancela,
onde em monólogo as estrelas brilham risonhas
escoando a nobre prata suicida, que ri medonha
às avenidas assassinas sentenciando sujas vielas.
Insiste a restante vida entre feridas e sequelas
afrontando céus, tal como um punhal que sonha
rasgar a carne e o desejo, extirpando a peçonha
de um faz de conta, fugindo ao pavor e à esparrela.
Claustro ou sedução, alegoria mórbida. Sim e não?
Complementam essa lenta decadência em irônica
gargalhada, e é nessa festa que a farda da solidão
vai despindo a tela descorada, estúpida e atônita.
A solidão protagoniza uma encenação cômica,
cerrando o lirismo em seu enigma e cantochão,
descerra seu espólio numa nudez lacônica,
e lá fora a invocação se perde em aluvião.
Campinas, 22/09/2006
Londres, 02/01/2009

Comentários