Home Data de criação : 07/10/14 Última atualização : 08/12/29 14:11 / 984 Artigos publicados
 

ESPELHO MEU e MINHA IMAGEM  (Sandra Ravanini e José C. Lopes) escrito em segunda 29 dezembro 2008 14:11

 

ESPELHO MEU e MINHA IMAGEM

Sandra Ravanini e José Carlos Lopes

 

 

Espelho meu, perdoa essa face imune
e ressentida; de olhos apagados...
o sorriso açoitado que me pune
é o veneno do medo desgraçado.

 

 

Minha imagem à semelhança do aço

que destempera à ação feroz do lume,

estorva a nossa voz ao descaso

das brumas vertidas ao negrume.

 


Tanta derrota e violência eu te mostrei
nessa vida que agora, só, tu choras,
e o reflexo nega à sombra que ora olha
o que te falta, me falta... já nem sei!

 

 

E nada sei da mão que nos toca

nessa ilusão que, só, eu imaginei

suplantar o delírio que eu criei

erguendo-nos vagar e a desoras.

 


É tarde; não há luz ou porta aberta
e cá estamos, rascunhando a confissão
do opaco eu e eu, sigilo fosco que aperta
a garganta de quem provou a danação.

 

 

Tempo esquecido em vias desertas,

apenas nós, sem eira ou profissão,

imagem minha; vai agora e liberta

alguma palavra em nossa adoração.

 


Espelho meu, o tempo escoa e nos condena
às vergonhas; portanto, rezar sem deus
encarando tu e eu, o nosso semblante ateu
devolvendo ao vidro feio o fim da cena.

 

 

Ou talvez poupar ainda um adeus,

imagem minha; desvanece e encena

a farsa e a apoteose da pena,

fazendo do desbrilho o nosso apogeu.

 

 

Campinas, 27/dezembro/2008

Londres, 28/dezembro/2008

 

Arte: Denise Moura

 

 

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Um pouco mais... e Ainda agora...  (Sandra Ravanini e José C. Lopes) escrito em segunda 29 dezembro 2008 14:08

 

 

Um pouco mais... e Ainda agora...

Sandra Ravanini e José Carlos Lopes

 

 

Envelhecido abraço àquela que lhe quis

outrora, hoje, sentinela de seu cais.

Definha a sombra ébria no pó do próprio giz,

riscando a solidão em terras que tanto faz.

 

 

Ainda agora... a mão desenhava uma paz

canhestra; vencia ao branco o matiz

daquele colorido opaco; e para trás

morria a alegria num horizonte gris.

 

 

Acumulando o sorriso para ninguém,

e o brilho retido encontra a alva parede,

chorando os seus filhos quando nenhum amém

sacia o eco das águas passadas na sede.

 

 

Ainda agora... a fome contida num verbete

indefinia e confluía num desdém

cada palavra dos que nada têm,

senão o tempo amortalhado em sua rede. 

 

 

Poderia ter legado aos meus olhos menos sais,

e ao açude de tristeza quando se rompeu

na promessa alquebrada em amor que morreu;

porque deveria ter ficado um pouco mais.

 

 

Ainda agora... um desejo esquecido se vai

na migração de um sonho que adormeceu,

escapa ao grilhão no laço que se rompeu

em perdas, e ganhos que a vida subtrai.

 

02/10/2006

23/12/2008

 

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Humor sem riso  escrito em quarta 17 dezembro 2008 16:12

 

Humor sem riso

Sandra Ravanini

 

 

 

    Envergonhada, vendo o Os laranjas, humor baixo introduzido no programa Domingo Espetacular — por sinal um bom programa —, confesso o meu desdém contra os ofensivos personagens fazendo piadas degradantes contra aquele que já foi considerado O Fenômeno: Ronaldo.

    Dois chatos imitadores se passando por Casagrande e Milton Neves, com um péssimo senso de humor somado ao hediondo recurso de utilizar tal espaço com o intuito de desmerecer e atacar, com toda a sujidade expressa, os temas já batidos, abatidos e combalidos, sem nenhuma inovação que se preze.

    É certo que a TV brasileira há muito tempo perdeu a qualidade e o respeito pelos telespectadores do nosso país, suspendendo bons seriados, desrespeitando os horários, expelindo burrices à nova geração mutante de estudantes, entre outros que desaprendem a cada nova-velha novela sem diálogo ou um mínimo de enredo inteligente.

    Lembremos o significado da palavra humor: Veia cômica; graça, espírito: Todos riem de suas histórias: conta-as sempre com muito humor. Capacidade de perceber, apreciar ou expressar o que é cômico ou divertido — fonte: Dicionário Aurélio.

    O que vi e ouvi não condiz com a acepção do termo.

    Respeito à liberdade de expressão sim, porém, não posso deixar de protestar ante o fracasso do que foi apresentado naquele programa, montado em uma tentativa, talvez, de se equiparar à competência de outro programa que vem apresentando, com excelência e maestria, a essência do humor espontâneo, original, político e social.

    Quem são vocês que tanto ofenderam aquele que já foi orgulho e agora luta para voltar aos gramados?

    Que dignidade deram vocês a esse país? Qual de vocês concedeu à multidão a beleza dos dribles, o grito de honra de ser cidadão brasileiro por alguns segundos?

    Enojada, vi duas laranjas estragadas nesse barril de humor fraco e perverso, em uma mesma emissora onde religião e sensacionalismo confundem seres do ser fenômeno.

    Irresponsabilidade ofensora não!

    A televisão, a bem da verdade, necessita com urgência rever o conceito liberdade de expressão,  distinguindo-o da liberdade de repetição e enganação àqueles que não têm TV paga.

    Liberdade também de deixar em paz e quem sabe aplaudir um brasileiro que deu mais a esse povo do que o sumo infecto de um humor sem riso e em decomposição.

    Não entendo como a Record, uma emissora premiada, deixou ir ao ar uma tela de horrores.

    Façam por nos merecer, com um pouco de dignidade e um mínimo de respeito e humildade aos que nos deram mais do que um grito de gol ou um ponto inconseqüente no laudo do ibope, principalmente aquele que a mim deu o exemplo da superação.

    O que presenciei, foi o suco das bagas covardes.

    Não a tal desmerecimento televisivo!

    Digam não, Custe o que Custar... é melhor!

 

 

16/12/2008

 

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AFLUENTES e CORRENTES  (Sandra Ravanini e José C. Lopes) escrito em domingo 14 dezembro 2008 15:54

 

AFLUENTES e CORRENTES

José Carlos Lopes e Sandra Ravanini

 

 

seguir os rebentos dos afluentes

tal leveza de um cenário outonal,

eis como sabe agora o sal

que liberta o corpo descrente

 

reter os fluídos inexistentes

ocultando a secura dessa cal,

ir a esmo na avenida artificial

mascarando o pranto reticente

 

aprender na docente cegueira

reprovando a alma inexistente,

eis toda a terra que se vende

aos saldos de um fim de feira

 

ensinar o caminho sem eira

evidenciando a aura transparente,

ir ao âmago cuspindo à demente

o choro da sóbria bebedeira

 

anuir seguramente na seqüência

dos conceitos margeando a febre,

eis como toda a vida então se mede

aos palmos da ignorada carência

 

assentir o ir e vir da falência

no concreto cinza que concede,

ir pisando a sombra que antecede

a lágrima vertida na ausência

 

calar a oportuna palavra que impede

o entrelace das águas incompletas,

eis agora somente o poeta

recoletando o final que antecede

 

cessar o silêncio que despede

do silêncio que anuncia a sarjeta,

ir pelo horizonte violeta

secando a água caída dessa febre

 

29/12/2007

14/12/2008

 

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Fragmentos & Atomicidade  (Sandra Ravanini e José C. Lopes) escrito em sábado 13 dezembro 2008 16:57

 

Fragmentos & Atomicidade

Sandra Ravanini & José Carlos Lopes

 

 

Colorir-te vidraça nublada é buscar o filamento

no néon do sonho em coma e nos olhos opacos e dormentes,

cravejados de vidros pontiagudos, feridas da mente

expiando os pedaços sem complexão deste álbum em fragmento.

 

Esperar da noite o adormecer absolvente,

engolindo a renitência mordaz do tormento,

mais a medonha devoração ao pensamento

amputando a súplica ao eu morbidescente.

 

Lâminas refletindo à têmpera imperfeita que enfrento

no vidrado ser que encara o mesmo corte deste retalho,

flertando com a profundeza estilhaçada do ato falho,

se, abrindo esta cancela, a sobriedade aspira o frio cimento.

 

Atomicidade que eu manuseio e entalho

ao alabastro que se define em cenho,

rascunhando toda a acalmia que eu resenho

ao planisfério em relevo dos meus atalhos.

 

E lanhar a face no escuro que abate o invertido apogeu

que a noite estrela, apagando a vidraça e fechando o sonho e ela;

e nada mais... e mais nada, além da fotografia que espera

abrir o álbum e encontrar no quadro disperso o trecho que é meu...

 

E cair lentamente na inevitável esparrela,

levando as exéquias de um sonho que morreu,

e nada mais esperar do que sempre desfloreceu

ao gelo pontual de invertidas primaveras.

 

Campinas, 03/08/2007

Londres, 21/11/2008

 

 

 

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